quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Escrita: manual versus digital (parte 1 de 2)


Escrita: manual X digital (parte 1 de 2)


A) Introdução

A mídia divulga que, segundo alguns "especialistas", a escrita cursiva vai acabar, está com seus dias contados.

A Rádio CBN noticiou na última semana de julho/2011 que acaba de cair a obrigatoriedade do ensino da escrita cursiva no último estado norte-americano. Ou seja, nos Estados Unidos ninguém mais vai aprender na escola a escrever "de carreirinha", palavras com letras emendadas umas as outras...

Antes de exprimir meu assombro por "especialistas" que afirmam aquilo, ou de expressar minha opinião sobre isto, vamos repassar o que é A ESCRITA e suas várias formas de manifestação.


B) A Escrita

A Escrita é uma das maiores invenções da humanidade. É o registro da idéia, do pensamento, dos fatos. É a forma de codificar a palavra e os sons, para que possa ser lido e interpretado depois, pelo próprio autor, por outros, pouco tempo ou muitos anos e séculos mais tarde. É uma viagem na mente de algum ser do passado ou presente, é trazer à tona civilizações e costumes esquecidos, é reviver aventuras imaginadas ou vivenciadas antes. Para os cultos, é um tesouro. Para os iletrados, é um mistério. Para os ignorantes, é uma mágica.

E o Homem inteligente usou símbolos para associar significados e sons para deixar seu modo de pensar escritos em pedra, madeira, tecido, papel, plástico ou metal, com tinta, fogo, em talhos, encaixes e luz. A esse conjunto de símbolos e suas convenções chamamos de Sistema de Escrita.


C) Os Sistemas de Escrita

Existem diversos (*1) sistemas de escrita.


As iniciativas mais difundidas e duradouras usaram pictogramas e ideogramas para representar palavras, conceitos e sons. Algo como ter um círculo cortado em diagonal sobre um traço horizontal com uma extensão sinuosa para cima numa das pontas, e ler nisto que "é proíbido fumar".


Os exemplos mais famosos desta categoria são os hieroglifos (egípcio), cuneiformes (sumério) e kanjis (chinês). Mas este método exige um repertório muito grande de elementos para se memorizar e poucos são capazes de ler/escrever com facilidade. São sistemas bastante complexos.


Na linha evolutiva natural de tornar o processo de escrita mais simplificado e fluente, aparecem os sistemas silábicos. Exemplos destes sistemas são: indo-asiáticos (tibetano, sânscrito, thaí, birmanês e outros), japonês (hiraganá e katakaná). O grupo de símbolos utilizados para representar os sons de sílabas existentes num idioma reduz drasticamente, e as palavras e conceitos podem ser compostos com reagrupamentos dessas sílabas. Isto permite uma popularização maior da escrita. Mas cada sistema destes funciona melhor ou pior dependendo do idioma para o qual é dirigido, porque cada língua possui características fonéticas que muitas vezes não são encontradas noutras.

Alguns sistemas de escrita simplificaram ainda mais o artifício de representação ao estabelecerem como símbolos básicos apenas as consoantes (sem vogais incorporadas). Exemplos desta modalidade: feníncio, aramaico, hebraico, árabe. Isto permite identificar o "esqueleto" das palavras, mas é preciso conhecer muito a língua (ou o contexto), pois palavras parecidas podem conter as mesmas consoantes, e dependendo da vogal combinada adquirir outro significado (*2).

Percebendo esta necessidade, o hebraico e o árabe introduziram os sinais diacrílicos ao redor das consoantes para denotar as vogais e tornar a leitura mais didátca, mas o uso cotidiano as dispensa sem cerimônia (os leigos que se virem! rs). O devanagari (escrita hindu e sânscrito) e demais derivadas, assim como outras escritas silábicas, também acrescentam sinais/letras para mudarem o valor das sílabas de referência.


Mas foram os gregos, com seu sistema "alfa-beta", que introduziram o conceito da composição da palavras com consoantes E vogais sendo elementos básicos e intercombináveis. Na carona dos gregos, outros alfabetos (ou abecedários) foram inspirados e seguem popular até hoje. Exemplos: romano/latino (que é este nosso, aqui usado), russo/cirílico, etrusco, georgeano, armênio e coreano (*3).



D) Usos e Empréstimos

Cada povo (ou seus governos) adotou um sistema de escrita (por empréstimo ou original) e possuem certas convenções de leitura onde alguns arranjos de letras assumem valores diferenciados.

As letras latinas são base para documentar vários idiomas (*4).


Na Idade Média foi adotado como padrão na Europa por força das conquistas do Império Romano, e posteriormente se manteve pela influência das igrejas católica e protestantes.


Notas:

(*1 Alguns sistemas de escrita antigos nem foram decifrados ainda, a partir dos textos encontrados)

(*2 Exemplificando, NDR poderia ser tanto NaDaR quanto NaDaRia, aNDaRá, aNDaRei, ou até mesmo aNDRé ou iNoDoRa. Sendo mais específico, as letras KTB formam a raiz das palavras árabes: KaTaBa = ele escreveu, KuTiBa = foi escrito, KuTuB = livros )


(*3 O coreano é uma engenhosidade a parte, mereceria um artigo dedicado para melhor descrevê-lo)

(*4 O chinês adotou o pin-ying para transcrever os ideogramas, porém apesar de serem as mesmas letras latinas em sua forma, a convenção fonética é diferente, o que gera uma tremenda confusão. Exemplos: b=p, c=ts, d=t, g=k, i=ê, j=dj, q=ch, r=j, x=s: z=ts, zh=tch... Isto explica porque a capital que sempre conhecemos como Pequim agora se escreve Beigin)



Continua no artigo "Escrita: manual versus digital (parte 2 de 2)",
que prosseguirá com os seguintes tópicos:
E) Dominação e Influências
F) A Arte de Escrever
G) Profissão Escritor
H) Escrita Popular Moderna
I) A Extinção da Caligrafia?
J) Conclusão


11 comentários:

Marly Bastos disse...

Tenho medo é que o código linguístico acabe de vez com essa escrita esquisita que se usa na internet.
Bom texto André.
Beijokas doces

Misturação - Ana Karla disse...

Bom dia André!
Acho que a cursiva faz parte de um treino para boa letra, mas uma vez que se aprenda, ninguém pode tirar.
Sem falar que é linda essa forma.
Adorei sua aula. Grande conhecimento.
Valeu!
Xeros

Jaqueline Köhn disse...

Olá Andre!

Gostei muito do post, uma vez que sou uma apaixonada pela escrita manual, pois através dela deixamos impressas emoções e características pessoais que só são possíveis através de traços deixados pela mesma ( existe até um estudo que explica bem isso, a grafologia ).Mas, apesar de ser preocupante que acabem com a escrita, acho pouco provável que ela se extinga de vez.Aliás, percebo que a humanidade às vezes dá uns passos largos em direção à modernidade, mas depois acaba tendo a necessidade de voltar atrás e resgatar coisinhas importantes deixadas pelo caminho.Acredito que não se constroi um futuro apagando todo um passado...

Beijo, abraço e aperto de mão!

PS: Já fiz até curso de caligrafia, em um lugar no centro de SP,numa das últimas escolas que ensina a arte de escrever bem ... éhhh, isso vc não sabia heimmm?...rs

Cacá - José Cláudio disse...

Andre, que artigo ótimo! Esta semana eu estava conversando com minha irmã sobre esse quadro de mudanças na escrita e estava me lembrando que antes a gente dizia letra de forma e hoje as crianças nem comnhecem mais o termo. Chamam de Caixa Alta. Não sei aonde vamos dar com essa mudança de paradigma da escrita, mas a robotização da gente vai de vento em popa e a tendencia será mesmo o abandono mais e mais da velha e saudável caneta. Acompanharei os próximos txtos com prazer. Meu abraço. paz e bem.

Valéria disse...

Oi André!
Excelente texto, brilhante aula!
Vejo e ouço coisas em que parece estarmos andando na contramão.São as letras, a forma de escrever, o uso dos livros. Que é isso?!Estão tentando destruir o que se levou séculos e séculos para ser criado. A escola da minha neta só ensina letra de forma, coitadas destas crianças que não treinarão caligrafia para deixarem sua marca com belos exemplares de letra cursiva.
Abraço!

Luna Sanchez disse...

Ui, quanta coisa!

Eu não quero que nada empobreça a linguagem falada e escrita. Não gosto de mudanças, sobretudo as de eficácia discutível.

Um beijo.

Ma Ferreira disse...

Olá!!!!

André caprichou heim!!!
Uma verdadeira aula!!!

A Bruna tem uma escrita própria.. é um tal hsusjhshs..fico indignada..
Como estes adolescentes conseguem escrevr tão errado ( nem sei e errado, ja que se entendem, acredito num novo dialeto..rs ) e conseguirem se espressar através da escrita formal em salas de aula??

bj..bom fds!!

SELIA disse...

Olá, boa noite!
Excelentes informações, amei..
Se for para melhor que venha...Geralmente não é..
Beijos
Selia

Elisa T. Campos disse...

Excelente texto,André
É uma pena se assim acontecer .Acho que a escrita cursiva tem mais leveza e cor como finas pinceladas em cadeias,embora a minha letra seja feia. Quando eu era crianca ficava encantada de ver os trabalhos escolares de minha irmã mais velha(manualmente bem escritos).Ela colocava os títulos com letras góticas.Os trabalhos ficavam muito bonitos.
bjs

JAIRCLOPES disse...

Excelente André,
Você disse tudo! E com competência! Sem escrita seríamos apenas "Macacos Nus" como dizia Desmond Morris. A escrita é que nos define do demais primatas. ESCRITA = CULTURA e estamos conversados. Abraços fraternos, JAIR.

Vivian disse...

...excelente texto despertando em mim tantas saudades de um tempo em que podíamos sentir as pessoas
pela escrita...algumas se deixavam ver pelo nervosismo no tremular das letras...outras já descontraídas bailavam com as palavras...hoje tudo tão frio, mecanizado...entristece-me!

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