domingo, 29 de novembro de 2009

Teoria da Janela Quebrada


Um amigo me perguntou certa vez se eu conhecia a "teoria da janela quebrada".

Suponha que você tenha uma casa novinha, tudo novo, arrumadinho e bonitinho. Daí uma janela quebra. Uma tabuinha que seja, ou um vidro trincado. Manda a teoria que você a conserte, imediatamente. Não importa se você já gastou tubos de dinheiro e agora está sem nenhum para isto e prefere aguardar mais um pouco. Não espere acumular probleminhas pra resolver tudo de uma vez, para quando sobrar mais tempo e dinheiro. Dê um jeito e arrume logo o que está fora de lugar e enquanto ainda esteja pequeno, pouca coisa, pois senão depois piora e com o tempo o estrago poderá custar muito mais caro.

Bem, eu já tinha ouvido outra historinha, a da "limpeza do casco de navios". A que recomenda lavar, raspar os mariscos que se acumulam no casco, e depois pintar. Nesta, a mensagem vinha com uma moral comparando a limpeza com o deixar o passado para trás, em esquecer o peso que carregamos para prosseguir mais leve.

Tanto uma quanto a outra, escutei com ressalvas.

No caso do navio, não gosto da associação de apagar o passado para seguir vivendo. Acho que se aprende com a história, e negá-la é uma evolução incompleta. Somos o resultado dos muitos que fomos, o Eu presente é a soma de todos os Eus passados.

E quando ouvi a da janela, torci o nariz, óbvio, pois havia acabado de reformar a casa inteirinha, e praticamente quase todas minhas reservas (e até o que não tinha) tinham-se ido nesta brincadeira... Pareceu-me muito mais lógico, prático e barato esperar ter mais alguma coisa pra arrumar e daí chamar algum entendido e especializado para arrumar tudo de uma empreitada, num pacotão só a ser acordado para ser econômico e justo para ambos. O que ficou para trás não eram reparos... Seriam reformas numa segunda fase. Acontece que esta nunca aconteceu, mesmo depois de muito tempo ter se passado. E então, com o decorrer desse tempo, além da segunda fase da reforma geral, há um monte de "janelas quebradas" para consertar...

Parece que vou na contramão da correnteza mais forte...

Por exemplo, enquanto a maioria prega que é preciso amar antes a si mesmo para amar outra pessoa, eu insisto que ser amado e reconhecido é fabuloso para a auto-estima. E é muito mais fácil entregar-se à pessoa amada, do que despender uma energia imensa para se convencer a sair de qualquer buraco sozinho e solitário.

Ok, reconheço que saber fazer o segundo nos torna auto-suficientes, e que o primeiro exige preparo para suportar a perda de modo que esta não se torne MAIS UM profundo buraco... Mas enfim, o primeiro é melhor e mais humano; o outro é mais prático e mais comum.

Uma teoria que tirei do dia-a-dia e aqui compartilho com o leitor. Aprendi cuidando da hera que envolve o muro de casa.


Um muro de hera é bonito, principalmente quando bem rente à parede, e é ecológico. Dispensa pinturas e é a melhor defesa (ou desestímulo) contra os pichadores ou grafiteiros. Cresce sozinha e sem cuidados, nem precisa regar.

Mas precisa aparar. Se não, dependendo das chuvas e sol, os ramos e pontas crescem tanto e tão rapidamente que começam a "atacar" os passantes na calçada... Mais que um problema estético, à medida que os ramos crescem seus talos engrossam, e daí fica muito mais difícil de cortar: exige muito mais esforço para aparar, a troco de calos e bolhas nas mãos, que poderiam ser evitados.

A primeira lição a ser tirada daqui é que se aparar a hera a miúde e com certa freqüência haverá menos galhos grandes para cortar. Levará muito menos tempo e esforço para terminar o serviço, e o volume de folhas pelo chão a recolher e ensacar será muito menor.

Este princípio está coerente com a Teoria da Janela Quebrada.

É o mesmo pensamento que devemos adotar em relação aos emails: assim que receber, abrir e ler um email, decida logo o que fazer com ele.
- Se for para responder, faça-o imediatamente.
- Se for para guardar, transfira-o na mesma hora para uma pasta organizada cujo título/nome facilite seu resgate posterior quando precisar.
- Se for para jogar fora, nem pense duas vezes para apagar logo.
- E se for para pensar e reler depois para responder com calma, assinale-o como tarefa urgente para ser lembrado logo.
Senão, tudo que você deixar para depois encherá sua caixa postal, e ficará praticamente impossível (ou uma tarefa monstruosa, cansativa e demorada) organizar isto mais tarde.

Outra coisa observada em relação à casa com o muro herado...

Suponha que todo o interior esteja uma bagunça por arrumar: a sala, os quartos, os armários, as estantes e gavetas.

Se começar a cuidar por dentro e esquecer da hera lá fora, e se a tarefa interna for grandiosa e tomar muito tempo, as pessoas que passarem em frente pensarão: "Nossa! Que casa mais mal cuidada!"... Mesmo você, que sai e entra na própria casa, terá essa impressão sempre que chegar em casa, que todo seu trabalho doméstico é invisível, e esta sensação é desestimulante... Parece que nada do que anda fazendo aparenta resultado.

Se, por outro lado, começar sua "reformulação" pelo lado externo, ou seja, cuidando da aparência da casa e aparando a hera (ou pintando o muro que não tem hera), não só as outras pessoas verão e pensarão numa casa inteira arrumada (ainda que restem faxinas internas por fazer), como também torna-se um verdadeiro estímulo para manter o interior bem arrumado também, pois quem vê de fora pode gostar e desejar entrar (o que não acontece com o aspecto abandonado da casa).

Assim, a segunda lição que podemos concluir é que se você quiser mudar ou reformular algo, comece de fora pra dentro.

Isto justifica que, quando algumas pessoas estão tristes, deprimidas e querem "dar um jeito" na vida e "dar a volta por cima", elas começam por mudar sua aparência (corte de cabelo, barba, roupas e sapatos novos), para depois mudar seu estilo de viver. É normal cuidar do visual primeiro, isto cria uma sensação de bem-estar que facilita o trabalho de se refazer por dentro. Não é vaidade, nem superficialidade. É instinto prático de sobrevivência. O espelho, neste caso, é o melhor conselheiro.

Isto, de certa forma, contradiz milhares de preceitos bem intencionados que recomendam cuidar da beleza interior primeiro, de se autobastar, a despeito da opinião externa. No caso, quero dizer que a primeira opinião externa tem que ser a própria, num exercício de projeção para olhar por fora primeiro, antes de mirar o interior da alma e de nossa casa, o corpo.

No fim, quando chega o futuro,
não digo mais que a Teoria da Janela Quebrada já era,
enfim graças à hera,
que envolve o muro.

7 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Boa Noite, amigo!
Gostei muito! Você me permite discordar em parte?
Vou permitir-me, ok?
Há um Amor Maior:
Amor pelos Filhos!
Este Amor prepara qualquer pessoa para Amar o Outro incondicionalmente e ser feliz:)))
Além disso, nem toda boa aparência é estética ou vaidade. Às vezes, é conseqüência e benefício da profissão.
Beijos
Renata

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

PS: Ainda que já não tenha os filhos.
Paz Luz Muito Amor Beijos Sempre
Renata

Vivian disse...

...houve um tempo em que tudo
em minha vida era cronometrado,
programado, planejado como se
eu tivesse domínio total de
minhas ações.

hoje saúdo o sol em cada manhã
e vou me encaixando no dia que
segue.

não sei se me entende.

mas acho que sim...

bj

ah
lindíssima sua parede de hera!

Ana disse...

Tô vivendo exatamente este momento de cuidar da aparência. E adiando as mudanças internas...

Andre Martin disse...


RENATA:


Bem, eu não sei onde o amor de filho entrou no texto, mas você tem TODO direito de discordar aqui. E acho bom que se manifeste e comente.

Se mencionou o amor aos filhos sobre a parte do texto que confronta "ter amor próprio x ser amado"... Eu em referia ao amor-paixão, relacionamento homem-mulher (e vice-versa)...

É sabido que há vários tipos de amor (filia x eros x ágape, segundo os gregos), e penso que alguns não se comparam, apesar de em português colocarmos tudo no mesmo balaio da palavra "amor".

A solidariedade e compaixão também é um amor, que se manifesta fortemente, principalmente em caso de tragédias humanas.

O amor pelos filhos também supera a própria existência (numa sobreposição da lei da preservação da espécie sobre a lei da sobrevivência).

Andre Martin disse...


Vivian:


E que venha amanhã o sol da manhã, nos saudando e nos tornando saudáveis!!!

Andre Martin disse...


Ana:


Seja bem vinda aqui. Obrigado por comentar.

Pessoalmente, acho que nem precisa cuidar da aparência externa: é muito linda e simpática!

hehehe Mas ok, cada um sabe onde o sapato lhe aperta o calo...

Em todo caso, achei muito interessante essa coincidência do meu post com uma experiência pessoal sua.

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