segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Caiu a ficha?


A garotada de hoje, ligada e esperta, é capaz de entender e digerir as coisas tecnológicas numa velocidade impressionante. A juventude atual, de alguma maneira tem muito mais facilidade de fazer funcionar um aparelho ou um programa - e sem ler manual! - do que os mais velhos e experientes. É uma ação quase que natural para eles, a moçada, que muitas vezes nem se dão conta disto, e ainda se espantam com a incapacidade ou perplexidade da geração adulta.

Mas a evolução do nosso cotidiano é tão rápida, que tem coisas que eles não entendem, e daí é nossa vez - a "velha-guarda" - de nos admirarmos de suas caras de espanto e interrogação no ar. Por exemplo, certas expressões do linguajar cotidiano, como; "cair a ficha", "discar" para alguém e "pegar no tranco". Eles até usam assim, mas se perguntam (ou não) de onde vem isto!...

Então, vejamos alguns esclarecimentos.

A) "Caiu a ficha?" = "entendeu?"

Quando os telefones públicos foram introduzidos no Brasil, copiaram modelo internacional que utilizava um mecanismo de aceitar moedas para "converter" valor em tempo de ligação.
Por duas rações principais - inflação galopante e o fato do brasileiro em geral preferir lidar com notas do que carregar moedas -, o mecanismo devorador de moedas foi adaptado para recolher fichas, pequenos discos de metal ou de plástico com ranhuras específicas para este ou aquele equipamento (o tamanho, os sulcos ou elevações como dentes de uma chave, e seu peso dificultam a falsificação e assegurava seu comércio).
O usuário comprava as fichas padronizadas em balcões de vendas autorizados pelo preço pré-estabelecido (ou com algum ágio, dependendo de onde comprava), e poderia usar em qualquer telefone público, bastando depositar a quantidade de fichas desejadas correspondentes ao tempo que se queria falar (ao final, se usasse menos, devolvia as fichas não utilizadas).
Acontece que muitas vezes o mecanismo "engolia" a ficha sem conversão, ou ela não "caía" no reservatório liberando mais tempo, e a ligação era "cortada", a conversa era interrompida, e as pessoas até prosseguiram falando sozinhas como se tivesse alguém na escuta do outro lado da linha, até perceber que "a ficha não tinha caído". Desse "retardo" de entendimento veio a expressão.
O mecanismo de fichas para telefone público foi substituído por um leitor de cartão pré-pago de minutos. E a maioria das máquinas de jogos de fliperama, que também funcionavam por fichas, agora funcionam por cartão magnético recarregável.
O princípio de cair a ficha para funcionar direito caiu em desuso, mas a expressáo lingüística decorrente ainda é usada naturalmente por muita gente.


B) "Discar um número" = "telefonar"

Os primeiros aparelhos de telefone doméstico possuíam um disco com 10 buracos em seqüência, um para cada algarismo (de 1 a 9 e 0), para inserir um dedo e fazer girar até encontrar uma marca. Assim, ao retornar à sua posição de descanso, o disco contava quantos pulsos correspondia ao algarismo pretendido, e uma combinação de número era informada. A central telefônica interpretava esse número e encaminhava a chamada.
Uma inovação alternativa foi trocar o sistema mecânico de pulsos por um circuito gerador de sons, um tom para cada algarismo, de modo que este pudesse ser acionado por botão ou tecla.
Muito mais prático e estético, o teclado acabou por substituir o disco dos telefones, hoje raramente encontrado e visto pelos jovens - super-ligados com seus telefones celulares -, mas este deixou seu traço marcante no nosso jeito de falar.


C) "Pegar no tranco" = "fazer funcionar (de um jeito ou de outro), mesmo que não queira funcionar normalmente"

Na verdade, queria mais dizer "fazer ligar (o carro ou motor) no embalo ou empurrando". Isto porque nos carros mais antigos (nem tanto assim) dar a partida com a chave na ignição às vezes falhava, principalmente com o motor "afogado" (encharcado de combustível) ou com problemas de bateria... Nestes casos, o mecanismo de partida não era capaz de fazer o motor ligar. Então era preciso colocar o veículo em movimento (facilitava esforço se fosse ladeira abaixo), e engatar uma marcha no carro (primeira ou segunda marchas), de modo que isto "travava" o motor neste momento e o fazia girar, simulando uma partida. Esse procedimento "agressivo" fazia o carro dar um "tranco", uma parada repentina seguida de um ligeiro salto abrupto. Na maior parte das vezes funcionava, mas era preciso habilidade e perícia de quem estava no volante para não deixar o carro morrer em seguida novamente.
Os carros atuais trocaram o antigo sistema de carburador por partida eletrônica, e, apesar de ainda ocorrerem afogamento de motor e problemas de bateria, se alguém tentar fazer pegar um destes carros no tranco, não deve funcionar, e arrisca até de quebrar o motor na tentativa. Os carros se modernizaram, a expressão permanece.

D) "Queimei meu filme" = "acho que fiz o que não devia", ou "pus tudo a perder"

Outra coisa em desuso atualmente são os rolos de filme ou película em negativo, nas câmeras fotográficas. As câmeras digitais e eletrônica dominaram o mundo, por sua capacidade, recursos e leveza, praticamente quase todo aparelho celular agora tem uma embutida. Somente os saudosistas e os profissionais ainda usam câmeras com filme. Estes precisavam ser colocados e retirados em salas escuras, para não queimar o filme. Os envólocros em que vinham esses filmes facilitavam a colocação e retirada do filme na máquina fotográfica. A parte do filme que ficava exposta à luz era perdida no momento da revelação. Se, por acaso, descuido ou acidente, a câmera se abrisse sem que o filme estivesse todo rebobinado, todas as fotos tiradas seriam superexpostas à luz, "queimando" assim parte do filme ou ele todo. As câmeras modernas eliminaram este risco das fotos, mas a expressão deixou marca registrada em situações de ações precipitadas até hoje.

Outras expressões no linguajar dos mais vividos podem soar como sem pé nem cabeça, completos enigmas quanto sua origem, muitas vezes vem de repetitivas "gagues" que fechavam alguns quadros bastante populares de certos programas humorísticos ou novelas na TV. Como, por exemplo:

E) "Vai pra casa, Padilha!" = "não fique aqui perdendo tempo, com uma gostosa em casa te esperando", ou "abra os olhos, você aqui e tua mulher em casa, pode estar te chifrando!"

F) "Nem parece que saí de dentro dela!" = "embora estruturalmente e visivelmente diferentes, grande, gordo ou alto, já fui pequenininho e venho desta origem modesta e simples..."

G) "Ah, é, é? Ah, é, é?" = "posso até pensar numa resposta boa, brilhante e arrementadora para aquela situação passada, mas agora não adianta, e na hora e só aceito e concordo..."

Você sabe de mais alguma expressão não tão antiga assim e que já pareça estranha nos dias de hoje? Contribuições serão bem vindas.

Mas o fato é que, se por um lado expressões permanecem e suas origens vão ficando obscuras com o tempo, outras vão surgindo e passamos a usar, sem que a gente se dê conta dos porquês.

Por exemplo, demorou para me cair a ficha de que o "demorow" da molecada atual quer dizer algo como "ok, entendido". (rsrs)


5 comentários:

tossan disse...

É verdade eles tem o poder! É como aquele poeminha lá no meu blog, ele é antigo do tempo que eu aprendia no improviso. Hoje fico em casa com a patroa me dando ordens com os remédios e perco a noção do real modernismo que não sei nada. Estou ficando velho e burro. Abraço

Lis. disse...

Bom dia André...

É interessante, que de pouco tempo pra cá, tenho instintivamente tratado essas "crianças" de oito a doze anos no meu limite, ou seja: Converso com elas como se estivesse conversando com adultos experiêntes.

Já me disseram que atualmente as gerações estão mudando à cada cinco anos, e sinceramente não dúvido.

É que no nosso tempo, a informação vinha, mas demorava um pouquinho mais, e hoje ela vem feito relâmpago.

Lembro que no meu tempo de escola liamos Capitães de Areia do Jorge Amado, e quem já havia lido o livro informava os outros onde estava a página descrevendo sexo.

Hoje não é muito diferente, sempre vem um que sabe mais e dá a "dica" de como chegar lá.

Eu, do meu lado, junto à crianças, apenas tento tolir a televisão, que infelizmente tem sido um caminho para a má educação.

Entretanto, os jovens ainda tem cabeça vazia, e em formação, o que dá para afirmar seguramente que se existe alguém ainda propenso a não cair a ficha, esse alguém são eles.

Bom feriado à ti e aos seus André.

Lis.

Cantinho da Cê disse...

Agora que caiu a ficha que eu estou ficando velha...eu sabia a origem de todas as expressões...hahahaha
Delicioso de se ler seu texto...
Vim agradecer sua visita nomeu blog,

Beijos e um bom feriado,

Cantinho da Cê disse...

Quanto ao seu comentário no meu blog posso te garantir que não tenho nada de angelical nem de diva do cinema. Talvez uma mistura de bruxinha do bem com cozinheira de bolos de cenoura encantados...rsrsrs

Beijos e bom feriado

Cê, Celeste

Ma Ferreira disse...

Nossa André... como você consegue arrematar tudo o que vc escreveu de maneira tão perfeita..
Admiro a sua inteligencia..de verdade...

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