sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Defesa agressiva


Ele se dizia "feliz", apenas. E eu digo: "feliz, por ter sobrevivido a uma defesa agressiva". Mas como pode ser uma "defesa agressiva"? Não seria o ataque que agride?

Estamos falando de Fórmula 1, do GP da Hungria, corrida ocorrida neste último domingo, dia 01/08/2010 .

No palco das atenções, à frente temos o heptacampeão Michael Schumacher, piloto da equipe Mercedes, ocupando a décima posição. Ao seu encalço vem Rubens Barrichello, piloto da equipe Williams, que passou pelos boxes para trocar os pneus do carro. Com pneus novos e macios num carro muito mais equilibrado, chega rapidamente perto do adversário na pista e desafeto de alguns anos, seu ex-companheiro de equipe na Ferrari, por quem teve que ceder muitas vezes. Havia um quê de eletricidade no ar, anunciando fortes emoções no que se seguiria.

Faltando 6 voltas para terminar a corrida, depois de já ter reclamado por rádio de algum comportamento anormal na maneira de conduzir o carro que vai a sua frente, Barrichello toma embalo e executa uma manobra de ultrapassagem na reta diante dos boxes. O que se vê na seqüência é lamentável...

Schumacher, decidido a fazer de tudo para impedir, muda de direção e leva seu carro cada vez mais para a direita, "empurrando" Barrichello, que estava do seu lado, inteiramente para fora da pista que, neste trecho, era muito larga. As fotos da cena, abaixo, não deixam mentir: a faixa branca demarca o limite da pista
(veja setas amarelas).

Pois Barrichello, decente e leal que é, se afastava do outro carro para evitar um toque e possível acidente de conseqüências imprevisíveis, enquanto o alemão não parecia preocupado com isto e contava com a desistência do brasileiro.

Acontece que do lado de fora da pista tinha um muro de concreto
(veja setas vermelhas)!! E por muito pouco mesmo (questão de centímetros), o carro de Rubens não toca na parede, com conseqüências previsivelmente desastrosas e possivelmente fatais, por causa da falta de espaço intencional deixada por Michael.


Uma manobra arriscada e desnecessária, até malvada. Sim, porque em termos de resultados, era uma disputa por apenas UM pontinho só, pela última posição que pontuava... Não se estava decidindo uma corrida, nem um campeonato. Foi apenas uma batalha de egos.

Do ponto de vista técnico, o carro de trás era mais rápido, não faria muito sentido segurar com jogo sujo.

Do ponto de vista ético, dentro de condições semelhantes, Schumacher não agiu da mesma maneira aguerrida quando os que vinham lhe ultrapassar eram outros alemães, como Nico Rosberg, Sebastian Vettel, Adrian Sutil e Nico Hulkenberg, mesmo estando em escuderias teoricamente inferiores (entre elas, outra Williams)... Nestas horas, o ego do heptacampeão mundial não se ofendeu por ter sido superado pela nova geração de seu país.

Bem, ao escapar deste quase acidente que por muita perícia e sorte não ocorreu, assim que tomou fôlego Rubens pede por rádio a desclassificação (bandeira preta) de Michael. Embora merecida e para ser exemplar, isto não aconteceu; os comissários preferiram punir o alemão só com a perda de 10 posições no grid de largada na próxima corrida e aplicar uma multa simbólica. Saiu barato pro esporte e pro piloto...

Pior foram as declarações de Michael Schumacher nas entrevistas após a corrida. Ele basicamente disse que o outro "tinha espaço suficiente para passar, tanto que passou, que todos conhecem Rubens e sabem o que ele vai dizer (=reclamar), exageradamente", quando indagado sobre sua atitude.

Já Rubens Barrichello, visivelmente indignado, foi mais político. Declarava-se "feliz, que passaria de qualquer forma, que já cedeu muito e se arrependeu disto e que isto já ficou no passado, mas que nesta ultrapassagem ele não precisava fazer o que fez", deixou para os comissários e quem vê TV tirarem suas conclusões.

Sim, feliz por ter lavado a alma, mostrado seu valor, uma semana depois de outro piloto brasileiro ter decepcionado a nação (a despeito do que venha a justificar ou dizer depois, sua atitude passada contrariará tudo). Mas na verdade, ele estava era aliviado! Foi um susto e tanto.

Tanto que, dias mais tarde, talvez porque viu a reprise da cena pela TV, Schumacher admitiu em seu site oficial "que a sua defesa havia sido dura demais, e que não era sua intenção jogar ninguém contra o muro, e desculpou-se caso Rubens tenha se sentido colocado em perigo", segundo informou o jornal A Folha de S.Paulo.

Ou seja, Michael finalmente viu a grande besteira que quase fez. E daí sim, eu acredito que Rubens tenha ficado bastante feliz e viveu para ler isso.


5 comentários:

Vivian disse...

"Na caixa exata de ferra-mentes,
haja pá...ciência!"

Mesdre


Bom dia, querido!

Você fez aniversário?

Erika Freitas disse...

Foi um milagre o Rubinho ter sobrevivido! Eu vi a corrida e não estava acreditando naquilo...
Foi realmente jogo sujo o que o Schumacher fez. Ele é um idiota! Pra que isso, gente?!?! Queria ver se o Rubinho tivesse se machucado... não imagina a posição que esse alemão babaca teria.
Enfim, que bom que deu tudo certo pro Rubinho!

André, parabéns pelo dia dos pais e pelo seu aniversário!!! Te desejo mais meio século de vida cheio de coisas boas!

tossan® disse...

Pra mim chega! Barrichello, Massa...Jogos de equipe, Marmeladas, um monte de milionários que deixam de ganhar, entrar na história com medo de perder os empregos! Não troco mais a praia ou o passeio pela F1 nem que chova. Agora é tarde para Barrichello, o pega não me emocionou nem um pouco.
F1? Nunca mais. Saudade Senna, Prost, Pique! O seu texto é formidável! Abraço

Andre Martin disse...


Vivian:


Sim, sim, cinqüenta,
agora agüenta!

Hehehe. Frase interessante! rsrs


Erika Freitas:


Não sabia que você acompanhava F1. Legal.
"Ele é um idiota!" foi o comentário de Eddie Irvine, sobre o incidente quase-acidente.
Você queria ver??!! Eu não, e ainda bem que NÃO vi! rs

Hehehe, é, cheio de comemorações! Ok, obrigado, mas essas outras 5 décadas tem que ter mais comemorações! rs


tossan:


Calma, amigo, esse desencanto passa... até a próxima passada dos roncos dos motores! rsrs

Eu entendo, mas eu pergunto: que outros empregos você conhece gente que não obedece o patrão? A F1 só choca mais porque está mais exposta, na TV e ao vivo, para milhões de fãs.

Piquet e Prost também não eram "flor-que-se-cheire"!
Pra mim, quem nunca mais vai conseguir convencer com discurso algum será Felipe Massa: não venceu quando teve oportunidade, quem acredita que vai fazer isto noutra ocasião, a não ser que os patrões deixem? Ele queimou seu filme, mas não o patrimônio dos herdeiros.

Escolha, aliás, bastante humana... Heróis não são humanos... se o fossem, não seriam heróis (vide Ronalducho). Heróis só existem num breve momento da história, em circunstâncias especiais, e não o tempo todo. Ídolos resistentes de metal, enferrujam; cabe a nós poli-los, se o quisermos brilhantes.

Andre Martin disse...


tossan:


Você, como tantos, que andava cansado de Barrichello, saíram com ele da F1 (e ele agora está achando caminho e galgando posições da F-Indy), viu só o resultado de pesquisa recente (abril/2012) feita na Itália para qual piloto gostariam de ver correndo pela Ferrari no lugar do Felipe Massa (em baixa)? Surpresa: Rubens Barrichello!! Será que ele voltaria?

Isto quer dizer uma coisa: o problema do RB não era ele, foi dele ter encontrado e ficado com o Michael Schumacher pelo caminho esse tempo todo que correu pela Ferrari. Mas a maioria dos tifosi ferraristas admiram seu trabalho e desempenho!

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