quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Duas festas em uma ou nenhuma


Salão aberto. Preparativos começam. Gente chegando e se acomodando. Todos parentes.

O som personalizado do telefone toca, avisando a chegada de nova mensagem de texto.
A tia, dona do celular, procura-o ansiosa, pois aguardava notícias de seu namorado.
O celular estava nas mãos do sobrinho, que jogava algum game disponível ou navegava pela internet.
A mensagem que chega estampa na tela, e o rapazinho inocentemente se levanta e leva o telefone à tia, já prontamente anunciando a mensagem:
- Ele diz que não poderá vir!
Ela, ou decepcionada ou nervosa, arranca-lhe o aparelho da mão e dá uma bronca pública, que ela não o havia autorizado a isto:
- Nunca mais faça isto! Eu não deixei você pegar...
Na verdade, sempre que possivel ele pedia e ela cedia o celular para ele explorar e brincar... nunca falou em restrições...
Neste dia, certo que houve alguma liberalidade, mas a regra era outra, mas ninguém estava avisado.
O clima ficou tenso...
O contrangimento de se ler uma mensagem pessoal, mesmo que nada revelador, em voz alta, era uma pequena afronta.
A mãe, num canto, se ressentiu também da aspereza inédita da irmã para com seu filho.
No ar, a bronca ao jovem parecia mais uma indireta à mãe, que "evidentemente" não dava a devida educação ao seu filho.
Foi só um deslize, um vacilo, que incomodou, porque no fundo era um rapaz muito bom e atencioso.
Mas era dia de festa, tudo ficou por isto mesmo. Ou quase.

O almoço iria ser servido, e durante a distribuição pela mesa dos apetrechos de pratos, copos e talheres descartáveis, vem outra pergunta inocente...
A tia quer saber:
- Avisou nosso irmão?
- Sim, respondeu a mãe.
- E ele vem?, insistiu a tia.
- Não sei, respondeu sinceramente a mãe... como poderia saber, o que ele faria, que imprevistos teria?
- Como assim: não sabe?, indignou-se a tia, elevando o tom da voz.
- Não sei, repetiu a mãe, procurando manter a calma e na defensiva, como uma leoa já ferida (e mordida pela bronca indireta em seu filho e "escandalosamente" pública)...
- Como eu iria saber? Eu não sei.
- Nossa! Não precisa ficar responder assim, nervosa! O que você tem?, ainda mais alto, para que todos presentes ouvissem e se envolvessem também.
Daí o marido intervém, vendo que a cunhada não iria aceitar aquela resposta como possível.
- Ela não pode saber, porque fui EU que falei com ele! Eu avisei-lhe do almoço e ele respondeu: 'Tá bom'. Foi o que contei a ela, exatamente isto. Não sabemos se ele virá ou não, esperamos que sim.
Ela percebe que não obterá a resposta que queria (confirmado, sim ou não?), e sem graça com a situação e as faíscas no ar, deixa escapar:
- Desculpas, por achar que ela é quem tinha falado com ele. Eu não sabia....
Mas daí o caldo já havia entornado.
A mulher se retira imediatamente da sala, enquanto as coisas ao seu alcance ainda estão inteiras.
O marido a segue, para levá-la de volta à casa, para ver se relaxa um pouco.
Os que ficaram para trás, ficam sem entender muito bem o que havia se passado.

O fato é que nunca se sabe exatamente o que se passa no íntimo de cada pessoa.
A falta de imaginação, de reconhecimento e de se colocar na pele do outro, leva a distorções da percepção.
Quando os nervos estão exaltados, tudo se exacerba.
Um copo nunca transborda por causa da última gota, mas porque chegou a ficar cheio!
O ápice da desavença já vinha acumulando detalhes menores que serviram de ingredientes para eclodir naquela hora.
Numa festa que não era para acontecer.
Um dos aniversariantes nem queria a festa, nem chegou a ser consultado; queria viajar, ia ser bom para a família.
Imprevistos obrigaram a cancelar a viagem, e tiveram que ficar na cidade naquele final de semana.
E ao saber disto, a tia logo inventa de "organizar" a festa que esta queria, mas que não haveria se fosse só para um aniversariante.
Em vez de fazer tudo, pensar no cardápio, chamar as pessoas e confirmar a presença, etc, cedeu o salão e ofereceu para repartir o (custo do) bolo.
O trabalhão maior, de pensar no que fazer, de fazer as compras do que faltava, de ficar até tarde cozinhando, além de todas as outras coisas por fazer, preparando um almoço, sobrou justamente para quem não queria se ocupar disto desta vez. Sempre sobrava pra ela. Ninguém fazia por ela.
Mesmo assim, fez. Porque afinal, o marido era dela e a mãe também.
Ele reconhecia esta sobrecarga, concordava com esta percepção, não queria a festa, também queria viajar, não puderam.
Insistiu para ela dizer não e não.
Mas o segundo argumento era forte demais para ser perdoável pelo resto da família: sua mãe!
O problema é que a mãe era das duas, e o trabalho ficou para quem não tinha planejado isto, enquanto quem queria ficou com a parte "mais fácil": cobrar. Isto é combustível suficiente para um estopim, quando juntam tantos outros fatores externos e variáveis fora deste contexto.

Mas isto, este drama interno, só sente que o vive.
Para quem vê de fora, as pequenas e mínimas pontas aparentes escondem o bloco maior do iceberg submerso.
Titanic afundou assim... Batendo de frente, ou quase, com um iceberg: o gigante gelado que acorda e "explode" desencadeando eventos.
E por ignorar o perigo, todos afundam juntos.
Resta prosseguir com a festa, e cantar os parabéns...
Porque a superfície calma e turva esconde os monstros submarinos que habitam nosso mar interior.
Melhor é navegar em silêncio, para não provocar mais ainda os humores inflamáveis, como as velas do bolo.
E cantar seguro, que ajuda a espantar os males.

Então:
Parabéns pra você, nesta data, querida!
Feliz ano novo!
Todo dia é dia de celebrar, com ou sem festas.



4 comentários:

Vivian disse...

...a verdade é que TODA família
é uma caldeira em ebulição,
mas ngm vive sem ela.

então,
parabéns pra você,
parabéns pra mim,
e parabéns para TODOS
que conseguem viver
em paz dentro deste
embroglio saudável.

adorei ler você!

bjs da coruja que
bisbilhotou
por aqui.

✿ chica disse...

Festas em família sempre podemos estar preparados pra alguma confusão...

É incrível, sempre há surpresinhas...


Temos que dar Parabéns mesmo, com ou sem bôlo!!abraços,chica

Valéria disse...

Oi André!
"Resta prosseguir com a festa, e cantar os parabéns...
Porque a superfície calma e turva esconde os monstros submarinos que habitam nosso mar interior.
Melhor é navegar em silêncio, para não provocar mais ainda os humores inflamáveis". Adorei sua frase, ela consegue descrever muito bem a superficialidade das relações familiares que infelizmente vivem como um estopim prontos a explodir, por mais que se jogue água fria.
Parabéns para nós que conseguimos com um sorriso no rosto continuar unidos...

Grande abraço!

Ma Ferreira disse...

Nao me perdoo por nao ter comentado este post.
Pq desse assunto de ficar quietinha e entendo..rs
verdade..
aprendi.. vivo exercitando...consigo..
Tipo assim ( aprendi com a Bruna ).
Quando ele ta nervoso..fico quietinha..o nervoso passa..
Qdo ele fica bravo no transito eu nao falo: calma bem..pq o calma be, destrava a porteira do nervosismo..
pq nesse momento td que ele quer e que eu fique estressada..
Bom..eu nao me estresso..sabe o que eu faco?
deixo ele ficar bravo sozinho...

O silencio e melhor coisa. Pq muitas vezes a pessoa quer briga. Fica procurando. Parece que e um alimento que ela ta precisando. eu me recuso a dar este alimento..fico quietinha..

Mas tb tem um coisa...qdo nao da..eu rodo a baiana..ai..sai da frente rsrs

bj..boa semana..
bj

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