quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Receita de ano novo


"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Desejos imediatos

(Parte 1:)

Filhorinhas 2 - Desejos imediatos


Como pai, fico a observar as crianças dos outros e como são criadas e educadas. (1)

Admiro as crianças japonesas, digo, as crianças filhas de pais de origem japonesa ou oriental, em geral. Pelo menos as que vejo aqui no Brasil e nos filmes. São quietas, caladas. Mesmo que inteligentes e arteiras, o respeito aos pais e tradição são marcantes, chamam a atenção. Não sei como eles, os pais, conseguem esse resultado, nem a que custo (de traumas, medos, ou censuras) para as crianças. Mas, como eu disse, fico com a impressão de que são quietas, caladas e respeitosas.

As crianças pobres, isto é, criadas (se é que pode-se assim dizer, talvez largadas seja palavra mais apropriada) por famílias de baixíssimo poder aquisitivo, também me revelam uma característica comum: parece que são mais pacientes, se contentam com muito pouco, e, com o pouco que têm, se enchem de imaginação para criar seu universo e brincadeiras para encher seu tempo. Se isto nem podem, ficam a fazer nada, com uma paciência e inatividade incrível. Certamente, não lhes sobram opções, mas aprendem rápido a se adequar - ou se conformar, não sei.

Comparativamente, as crianças mais "afortunadas", criadas por pais que lhes desejam tudo de bom ou facilidades que não tiveram enquanto crianças, são mais exigentes: querem de tudo, e sempre, e mais. Nunca se contentam e quase sempre se frustram quando não conseguem aquilo que desejam.

Talvez o mal esteja na forma como lhes educamos. Causa e efeito. Razões e conseqüências. Não saber dizer NÃO, ou acostumá-las que o SIM é possível e fácil, sem muito esforço para alcançar seus desejos, é como não ensiná-las a valorizar seus desejos alcançados.

Preocupado com isto, procuramos dosar o que é dado e o que é negado. Justificando quando não damos, sem querer privá-las do que é necessário a uma vida melhor (pra quem?).

Davi é mais compreensivo e sempre uma boa explicação lhe convence, ainda que fique contrariado.

Já Arthur, este quando quer algo, não há conversa que o convença! Ele fecha a cara, dá-lhe as costas e fica "de mal", emburrado por um bom tempo... E é daquele que não esquece as faltas que você lhe faça, e com o tempo aproveita alguma oportunidade para lhe devolver a moeda ou lhe jogar na cara a desfeita. Isto é terrível. Para ele, os desejos têm que ser atendidos, imediatamente. Esperar acontecer um desejo é algo que precisa aprender ou aperfeiçoar. Mas às vezes o próprio tempo parece conspirar para isto!

Estávamos viajando de carro, pelas estradas no sertão deste enorme Brasil, na região do planalto central, onde predomina a vegetação e fauna de cerrado. Numa dada paisagem, avistamos o que chamei de "plantação de cupins", ou seja, uma quantidade enorme de cupinzeiros (montes de terra onde habitam essa espécie de formigas) no meio.



Sabido que é, Arthur lembrou-se que tamanduás-bandeira são naturais desse habitat.

- Por que você quer ver um tamanduá? É um bicho raro, em extinção... Você acha que vai ver algum vivo, perto da estrada? Eu e sua mãe já vimos, até dois, em tempos e lugares diferentes, mas mortos na beira da estrada, certamente atropelados ao tentarem atravessá-la, e os veículos não conseguem parar em tempo. Se você tiver sorte, podemos até ver algum pelo caminho. Fique atento.

- Mas eu quero ver um vivo! Um tamanduá-bandeira!

- E tem que ser tamanduá-bandeira? esse é o maior deles. E não são tantos. Se ver, talvez seja um pequenininho, e morto no acostamento. Mais fácil ver tucanos voando, atravessando os céus por esta região...

- Eu queria ver um, vivo! - repete ele, decidido. Vai ficar querendo, pensei.

Não demora muito, distraída e apreciando a paisagem, Mirian vê ao longe um cachorro grande, andando esquisito em campo aberto, e este pára diante de algo no chão. De repente, percebe que não era um cão, mas sim um tamanduá! E vivinho da silva!!! Com o carro a 100 km/h, tudo acontece muito rápido! Mas foi tempo suficiente para que todos nós o víssemos com nitidez e deslumbre, em plena ação, metendo o focinho e a língua no cupinzeiro (claro que este detalhe só estava claro na nossa dedução). Pelo desenho e coloração típica da cauda - se é que se pode dizer que preto-e-branco seja "coloração" -, era certo que se tratava de um tamanduá-bandeira! Pena que não deu tempo de registrar a cena: ou era desviar o olhar para pegar e preparar a câmera fotográfica digital, ou era apreciar e memorizar aquele precioso e raro momento, eternizado agora em nossas lembranças.

Ainda empolgado com o privilégio presenciado, eis que vejo no canto da estrada um grande volume se aproximar e passar a 100 km/h, jazido inerte. Era outro tamanduá (eu vi a cauda, e pelo tamanho, também mais um da espécie bandeira)... Este, só eu vi bem. Quando avisei, os outros só puderam confirmar vendo pela janela traseira do carro aquela coisa morta afastando-se.

Foi uma cena triste, principalmente comparada à anterior. Dali a pouco, avisto outro murundum adiante na beirada da pista... Vou diminuindo a velocidade aos poucos e encostando, dando passagem aos outros apressados veículos que vinham atrás, alheios a essas coisas da natureza de nossa fauna, vitimadas pelo progresso do mundo. Até parar bem em frente. E a visão era esta, a da foto aqui publicada. Dá pra ver o tamanho das unhas, do focinho e as faixas brancas nas patas... Outro tamanduá-bandeira, o terceiro do dia! Já era bem de tardezinha. E pelas moscas e vi voando ao seu redor, e o estufamento da barriga, devia estar morto desde de manhã, pelo menos, senão antes.



A viagem prossegue, faltava pouco para chegar ao nosso destino, e queria terminar a jornada logo. Lá na frente, mais adiante, outro bicho morto, desta vez do outro lado da estrada. E quem diria: o quarto tamanduá-bandeira do dia! Nem parei para tirar outra fotografia. Mas todos testemunharam mais este. Eu disse:

- Arthur, dê-se como um cara privilegiado! Poucos são os que têm a sorte de ver um tamaduá-bandeira de verdade, que não seja nas fotos. Você viu QUATRO!!! Se bem que três deles mortos, mas UM ainda vivo, e em seu habitat natural!
(2)

E ele reflete um pouco, e conclui:

- Sim, eu queria ver um tamanduá-bandeira hoje, e vi. É, meus desejos são imediatos! Acontecem quando eu desejo.
(3)

Por sorte, eu mantinha minhas mãos no volante, dirigindo... não sei se esganava ou abraçava o menino!

Ah, por acaso, eu me lembrei daquele sujeito que rezava/orava pedindo para ser mais paciente: "Oh, Senhor. Dai-me paciência... mas TEM QUE SER JÁ!!".



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(Parte 2:)

Comentários pessoais:

(1) Importante: não estou aqui a fazer nenhuma crítica nem levantando preconceitos

(2) "habitat natural" pode parecer barbarismo, mas lembro que pode haver "habitat artificial"mente reconstituído pelo homem, por exemplo em zoológicos

(3) Ele já havia demonstrado dessas, mas isto é uma outra filhorinha...


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Às compras

(Parte 1:)

Filhorinhas 1 - Às compras


Filhos crescem rápido, e logo-logo temos que sair desesperados a comprar roupas e calçados para eles, que via-de-regra precisam para uma apresentação ou qualquer outra coisa de escola ou festinhas, sempre avisados de última hora. Bem, se bem que não adianta também estarmos sabendo com antecedência de um mês porque nesse meio-tempo aquele vestuário todo pode já estar curto.

E lá fomos às lojas de shopping center, procurando roupas para o filho mais velho, que tinha uma apresentação da escola de música logo mais à noite, e o código seria padrão branco! Claro que ele não tinha nada, opção nenhuma em cada... Imagina! Filhos adolescentes vestindo roupas e tênis brancos no dia-a-dia... É pedir para encardir: chamar de branco, só por mera lembrança!

O par de tênis foi fácil. Achamos um num preço razoável (nunca são baratos!), ele calçou, serviu, gostou (isto é, não contestou - que ótimo!), levamos! Na verdade, sem dizer, ele gostou muito. Tanto que já quis sair da loja com par já calçado.

Depois de rodar muito, procurando, finalmente achamos uma loja que só vendia roupas brancas. Havia 5 atendentes esperando algum cliente entrar. Entramos e uma delas veio nos atender, enquanto as demais continuavam a dobrar algumas peças de roupas para guardar nas estantes, finjindo-se ocupadas. A mocinha atendente, solícita, ouviu o que buscávamos, e entregou uma calça para o Davi experimentar, e este seguiu para a cabine, ouvindo atrás nossos conselhos óbvios mas quase inúteis: "tira o tênis, antes de vestir a calça (nova e limpa)"...

Curiosamente, qualquer pergunta que se dirigia a qualquer uma delas, por exemplo, "que época do ano há mais procura por roupas brancas?", elas hesitavam em responder ou todas olhavam para a mais jovem, que era quem nos atendia, e também quem tinha respostas seguras para todas as perguntas. Obviamente era a mais velha da loja, apesar da jovem idade, e as outras mais maduras seriam novatas no emprego...

Foi quando, o Davi sai do provador com a calça vestida, e que lhe caiu muito bem também! O tênis até combinava com a calça. Parecia um mocinho. E ele foi nos entregando a calça que usava antes, como quem diz "paga logo e vamos embora". Daí, eu e Mirian dissemos quase que uníssono: "Ah, não! você não vai vestido com esta calça branca para casa, não". Traduzindo, o que no fundo pensávamos era: "ela é para a festa de hoje à noite. Se sujar antes, já era! Deixa então para sujar lá, mas pelo menos vai limpo e bonito".

Então ouvimos a resposta que muito nos surpreendeu: "Ah, não! Dá muito trabalho ter que tirar e colocar este tênis. Eu vou assim mesmo pra casa!". A loja inteira pos-se a rir, o que talvez tenha lhe convencido a voltar atrás e "destrocar" a calça.

E nesse esperar, mais perguntas para as atendentes, procurando envolvê-las e também quebrar o silêncio da loja: "qual a peça mais barata que vocês tem aqui para vender?", perguntei (já que tudo parecia tão caro). Como sempre, a mesma mocinha era quem sabia a resposta: "são as camisetas tipo regata, simples, uns 20 reais". O nosso pequeno, que aguardava impacientemente a hora de ir embora, resolveu intervir: "Que nada! São as meias!", mostrando-se observador e atento! A mocinha, meio sem graça, reconhece (que não sabia TODAS as respostas): "É mesmo! Puxa, como ele é esperto! As meias estão na faixa de 5 reais o par... Eu tinha me esquecido delas.".

E a gente pensa que esses garotos não são práticos e que ainda precisam ser ensinados...


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(Parte 2:)

Comentários pessoais:

Temos uma coleção de historinhas de filhos, a que chamo Filhorinhas, muitas reunidas com o propósito de não esquecermos de passagens curiosas e divertidas ocorridas com nossos filhos, e para divulgar por email entre amigos e parentes distantes do nosso convívio diário, e quem sabe posteriormente tornar-se um livro, visto que elas eram do agrado de todos.

Algumas delas foram publicadas em posts pela Mirian (http://caldeirao-da-bruxa.blogspot.com) em seu primeiro blog, no Caldeirão da Bruxa (http://caldeirao-da-bruxa.myblog.com.br).

Aqui vou publicar algumas mais recentes, pelos mesmo motivos que já fizemos antes.

Espero que se divirtam.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sexo cotidiano



Tema polêmico: Sexo cotidiano


Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, Sexta-feira...

Dizem que todo dia é dia de feira, mas feira boa mesmo tem é no Sábado e no Domingo, que não têm "feira" (no nome)... (rsrs)

A SEXta-feira é SEXy! (rsrs)

Por falar em sexo, quando se fala em sexo, enquanto fantasia erótica, sutil e insinuante, beleza! Mas quando baixa a baixaria, não gosto.

Quando a falação é explícita e desbocada, é muito irreal. Quero dizer, longe da nossa realidade, do nosso dia-a-dia - já explico.

Sexo bem feito, é muito bom, prazeiroso, relaxante, sublime.
Mas sexo também é nojento, e se não estiver no clima, é um desastre.
E sexo mal feito, não é horrível: é perverso, sádico, doloroso, cruel, inumano, é potencialmente traumatizante...
Amor pode até rimar com dor. Prazer, não.
Amor não correspondido, dói.
A dor e aflição de muitos é campo fértil para praticar o amor solidário e fraternal, na busca de cura, apoio e reconstrução.
Se dor física causar prazer, certamente tem algo errado!

Quanto mais você se adentra no universo do sexo - que é viciante -, nunca se sacia, e busca cada vez mais e mais. A ponto de distorcer a normalidade: coisas que pareciam impensadas ou impensáveis, passam a parecer "normais" e "aceitáveis", e todos esses "excessos" que vemos/ouvimos por aí, pra muita gente nem é mais exagero, virou rotina, cotidiano.

O que muita gente faz na louca e insaciável busca do prazer e da felicidade, acaba se arriscando com pessoas que não reagem como esperam/sonham, e acaba se tornando uma roleta russa, uma loteria do amor, do sexo, da perdição. Para alguns (poucos, raros) acaba bem; mas para a maioria das pessoas normais não é bem assim, sendo bem realista.

As pessoas que a gente encontra no dia-a-dia pelas ruas, nas lojas, na escola, no trabalho, em casa, no nosso cotidiano diário, não estão lá naquele limite extremo, lá longe, vivendo e respirando sexo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Isto é para quem vive a "indústria do sexo", que vive de sexo e para o sexo, o sexo que se "vende" nas bancas de revistas, nos vídeos e internet.

A nossa realidade, de ser humano, é tentar sobreviver no dia-a-dia como cidadãos normais. Sexo pode ser um tempero gostoso, buscado até. Mas se ele domina nossas ações diárias e corriqueiras, não é o nosso corpo que está viciado, mas nossa mente que está torpe, entorpecido!

Passe um dia olhando pras pessoas que você vê pelas ruas e imagine "será que esse/essa alí faz tudo aquilo, ou alguma daquelas coisas, o tempo todo?". Você pode até imaginar que sim, e se divertir com tal pensamento... Só que se você continuar a observar, vai ver que ele/ela pode até sonhar com isto também em pensamentos, mas a realidade é que ele/ela está ali indo cuidar da vida, talvez de uma vida que odeie e nem quisesse que fosse assim, mas assim é a realidade.

Sexo não acontece o tempo todo...
Nos contos, nos vídeos, nas fotos das revistas, nas conversas, sim: essa é a imagem (sublimiar) que fica.
Quando acontece, aqueles raros, preciosos e eternizados 15 min ou meia hora (e nem é todo dia, nem todo mês) - e, para muitas pessoas, umas poucas vezes na vida -, podem ser tanto de felicidade extrema quanto uma das coisas mais traumatizantes da qual se quer escapar e nem sempre se consegue.

Não, não estou traumatizado. Estou racionalizando em cima do irracional. São apenas "insights". E adentrar-se parece ter relação sexual... (rsrs)

Há quem diga que sexo é, essencialmente, uma invasão de corpos. Sexo é puro prazer e gozo.

Eu penso que sexo é união, integração de corpos e almas. Sexo é complemento do amor e da paixão.

O meu problema é que eu só penso em sexo! O tempo todo. Penso muito, só fico pensando... (rsrs)
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